#167 Ué, mas pode?
Sobre um brigadeiro e a mulher que saiu voando.
Eu estava me perguntando se valia a pena furar a dieta por conta daquele brigadeiro. Por apenas R$5, a padaria oferecia um doce do tamanho de uma maçã e ele me olhava sedutor de dentro da vitrine. Enquanto eu ponderava e tentava adivinhar se ele teria gosto de felicidade ou de mistura pronta, ela entrou com cara de poucos amigos.
O homem que a acompanhava perguntou: “então, vamos almoçar?”. A resposta veio rápida: “não, estou de saco cheio, vou para casa”. E saiu da padaria sem que o cara pudesse esboçar reação. Esqueci a gula e fui tomada por outro pecado capital: a inveja.
Como assim ela é capaz de declarar seu desejo assim, em voz alta, e negar um convite amistoso sem sequer pedir desculpas? Quem ela pensa que é? Acha que é dona da própria vida? As pessoas podem fazer isso?
A liberdade incomoda quem não tem coragem de fazer o mesmo. A gente pensa que isso só acontece com pessoas preconceituosas, mas ali estava eu: progressista, feminista e… roxa de inveja de uma mulher que - pelo menos naquele recorte de tempo - não pedia desculpas por quem era e nem pelo que estava a fim de fazer.
A cena virou pauta da terapia, claro. E eu, que não costumo fazer minha psicóloga de guru, achei que valia abrir uma exceção.
“Como é que faz isso?”
“Isso o quê?”
“Fazer o que dá na veneta sem ficar se explicando, justificando ou pedindo desculpas. Tem passo a passo? Alguém no YouTube deve ter feito um tutorial, não é possível.”
“Você faz assim ó: decide o que você quer fazer e… faz.”
“Mas pode?”
E nesse dia, eu tenho certeza, a mulher que cuida da minha saúde mental há quase 20 anos entendeu que eu estava completamente maluca.
Eu tenho 40 anos. As contas de casa estão pagas. Casei com um cara que apoia todas as minhas ideias. No meu círculo íntimo não me sinto julgada ou criticada por ninguém, pelo contrário. Então, por que raios é tão difícil bancar minhas decisões?
A pergunta é retórica, claro. Eu sei de onde vem a síndrome de princesa da Disney e nem estou sozinha nessa. Assim como eu, muitas mulheres da minha geração foram educadas para agradar e colocar as necessidades dos outros em primeiro lugar. As consequências a gente sente no corpo: exaustão, ansiedade, olho tremendo, burnout, vontade de sumir, fadiga social.
Mas de nada adianta culpar eternamente a mãe, o pai, a sociedade, a mídia. Chega um momento em que a gente precisa deixar tudo isso de lado e assumir o controle da própria vida.
“A gaiola está aberta, foi você mesma que construiu e você mesma tem a chave”, segue minha psicóloga.
Nessa metáfora da gaiola, ela e Rubem Alves estão alinhados. E ele escreve esse tapa na cara com uma doçura de emocionar até os corações de pedra:
Somos assim. Sonhamos o voo, mas tememos as alturas. Para voar é preciso amar o vazio. Porque o voo só acontece se houver o vazio. O vazio é o espaço da liberdade, a ausência de certezas. Os homens querem voar, mas temem o vazio. Não podem viver sem certezas. Por isso trocam o voo por gaiolas. As gaiolas são o lugar onde as certezas moram.
É um engano pensar que os homens seriam livres se pudessem, que eles não são livres porque um estranho os engaiolou, que se as portas das gaiolas estivessem abertas eles voariam. A verdade é o oposto. Os homens preferem as gaiolas ao voo. São eles mesmos que constroem as gaiolas onde passarão as suas vidas.
Aparentemente, a moça da padaria resolveu provar que Rubem Alves estava errado. Ela abriu a porta da própria gaiola, deu o dedo do meio para o cara que a acompanhava e saiu voando. Foi tão bonito que eu até esqueci o brigadeiro.
Curtinhas!
Uma pequena lindeza.
Audiolivros para escutar a dois.
O Substack é o novo Tinder? A Miranda July dá uma forcinha para encontrar o par.
Ampliando o conceito de “traição”.
E se você quiser uma ajuda extra para ler Homero, tem esse curso aqui.
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#153 Terapia é para os fortes.
Terapia é para os fortes. Ouvi essa frase da minha psicóloga e fiquei ruminando as palavras por um bom tempo. Já ouvi dizer que a terapia é para “os malucos”, para quem “não tem louça pra lavar” ou para quem “não tem Deus no coração”. Mas para os fortes?
O que eu estou lendo?
Por aqui, monogamia mesmo só no casamento. Na literatura, eu sou uma piriguete. Além de O Aniversário (para o clube da Sarah Germano), Se eu soubesse contar infinitos (para o Liteatrando) e The Goal (porque eu sigo viciada em Off Campus), decidi começar a ler Ilíada (para, quem sabe, chegar à Odisseia até o fim do ano). Estou ousada, mas ainda não sei aonde isso vai me levar.
Aproveitando…
Quem me segue por aqui sabe que eu amo ler, indicar livros e compartilhar minhas impressões sobre eles. Então, resolvi tirar do papel um sonho antigo: uma plataforma de incentivo à leitura. O Palavra Livro chegou ao Substack e eu vou amar te ver por lá!






além de ensinar que podemos sair voando, a mulher ainda poupou as calorias de um brigadeiro gigante. não poderia ser mais perfeita!